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Que ingredientes
preciso para
fazer gelado?

Não são muitos, mas cada um cumpre uma função técnica. Perceber o que dão a gordura, os sólidos, os açúcares e o estabilizante é o que te permite formular em vez de copiar receitas às cegas.

Matéria gorda
Sólidos lácteos
Açúcares
Estabilizantes
Aromas
Ingredientes base del helado casero pesados sobre la mesa de trabajo
Ingredientes base del helado casero pesados sobre la mesa de trabajo
A ideia central

Um gelado constrói-se equilibrando quatro grupos: matéria gorda, sólidos lácteos, açúcares e estabilizantes. Mudar um afecta os outros; por isso formula-se, não se improvisa.

Os grupos

Os ingredientes para fazer gelado,
por função

Toca em cada grupo para ver o que traz, que produtos entram e em que proporção se move.

Matéria gorda

Proporção habitual: 2,5–12 % em gelados de leite e de nata; 0 em sorvetes.

Dá corpo, untuosidade e uma fusão lenta e agradável em boca. Envolve as bolhas de ar e transporta boa parte dos aromas, que são lipossolúveis. Pode ser láctea (natas, manteiga, leite gordo) ou vegetal nas versões sem lactose.

Produtos habituais

Natas 35 %

Leite gordo

Manteiga

Yema de huevo

Gordura de coco

Conselho: não procures a gordura máxima: em excesso, empasta e tapa o sabor. Manda o equilíbrio.

Proteínas e sólidos lácteos

Proporção habitual: 8–12 %

São as proteínas do leite (caseína e soro) mais a lactose. Dão estrutura e corpo, ajudam a incorporar e reter o ar, seguram a água e mantêm pequenos os cristais de gelo. Dão-se com leite em pó magro, e o de soro serve até para sorvetes.

Produtos habituais

Leite em pó magro

Proteína de soro (whey)

Proteína láctea

Leite concentrado

Soro em pó

Conselho: as proteínas melhoram a textura, mas acompanham a lactose: acima dos 6 % relativos, a lactose cristaliza e dá aspereza. Sobe a proteína sem a disparar.

Açúcares

Proporção habitual: 16–22 %

Fazem duas coisas ao mesmo tempo: adoçam —o POD, poder edulcorante— e baixam o ponto de congelação —o PAC, poder anticongelante—. Combinar vários permite ajustar a doçura e a dureza em separado, algo impossível só com açúcar comum: por isso uma receita séria nunca leva um único açúcar.

Produtos habituais

Sacarose

Dextrose

Glicose atomizada

Açúcar invertido

Mel

Frutose

Maltodextrina

Conselho: a dextrose baixa mais o ponto de congelação do que a sacarose e adoça menos: perfeita para amolecer sem enjoar.

Estabilizantes e emulsionantes para gelados

Proporção habitual: 0,3–0,6 %

Um estabilizante para gelados trabalha em doses mínimas: liga a água livre, estabiliza a emulsão de gordura e trava a formação de cristais durante a conservação. É a diferença entre um gelado que aguenta dias no congelador e um que cristaliza em poucas horas.

Produtos habituais

Neutro para gelado de creme

Goma de alfarroba

Guar

Mono e diglicéridos

Conselho: hidrata-os sempre misturados com parte do açúcar e a quente; se os deitas de uma vez, formam grumos.

Aromas e ingredientes de sabor

Proporção habitual: variável

O que dá personalidade: fruta, chocolate, frutos secos, baunilha, café… Dão sabor, mas também água, gordura ou açúcar próprios, por isso têm de ser contados dentro do equilíbrio da receita e não acrescentados por cima.

Produtos habituais

Pasta de pistácio

Cacau / cobertura

Vagem de baunilha

Fruta e purés

Café

Conselho: uma fruta ácida ou muito aquosa muda o equilíbrio: ajusta-a na fórmula, não a deites «a olho».

O grupo que mais confunde

Os açúcares,
em pormenor

Nem todos os açúcares adoçam nem congelam igual: aí está a ferramenta para governar o gelado. Medem-se com dois coeficientes, o POD (poder edulcorante, sacarose = 1) e o PAC (poder anticongelante, negativo por grama).

Mais POD, mais doce; um PAC mais negativo, gelado mais mole. Somando o que cada açúcar dá sai o do conjunto, e o O PAC da mistura exprime-se em °C negativos.

Adoçam

Dão a doçura que percebes. É o que mede o POD.

Anticongelam

Baixam o ponto de congelação. É o que mede o PAC.

Dão corpo

São sólidos: dão textura e travam os cristais de gelo.

Açúcar
POD
PAC
Para que o usamos
Sacarose (açúcar comum)
1
−0,64
A referência. Dá doçura e estrutura; é a base sobre a qual tudo se mede.
Dextrose
0,7
−1,22
Adoça menos e anticongela bastante: amolece o gelado sem enjoar.
Glucosa deshidratada 21 DE
0,15
−0,30
Quase não adoça nem anticongela: puro corpo e sólidos. A base dos gelados pouco doces.
Glucosa deshidratada 38 DE
0,3
−0,39
Dá corpo e sólidos, adoça e anticongela pouco: textura e travão de cristais.
Maltodextrina
0,15
−0,21
Glucose de DE muito baixo: corpo e sólidos sem doçura. A dos gelados com álcool.
Açúcar invertido 70 %
1,25
−1,22
Muito doce e muito anticongelante. Em dose pequena, para cremosidade e sabores intensos.
Mel
1,25
−1,22
Como o invertido, mas traz o seu próprio sabor. Usa-o quando quiseres notá-lo.
Frutose
1,7
−1,22
O mais potente em doçura e anticongelante. Muito medido, sobretudo em sorvetes.

Coeficientes de referência: POD como fator (sacarose = 1) y PAC como coeficiente negativo por grama. Somam-se os contributos de todos os açúcares para obter o POD (em %) e o PAC (em °C negativos) da mistura. Variam um pouco consoante o fabricante, sobretudo as glucoses conforme o seu DE.

Nuance profissional

PAC relativo vs PAC absoluto

O PAC calcula-se sobre o total da receita (relativo), mas a única coisa que congela é a água. O valor que de facto marca a dureza de serviço é o PAC absoluto, que relaciona esse cálculo apenas com a água contida.

PAC absoluto = PAC relativo × (100 − sólidos totais) ÷ 100

Um sorvete com PAC relativo −16,5 e 30 % de sólidos → −16,5 × 0,70 = −11,5 °C reais de serviço.

Na prática

Três ingredientes que entram por duas portas

Há ingredientes que não ocupam uma só casa: contribuem para dois ou três grupos ao mesmo tempo. Se não os descontares do resto, a fórmula foge-te sem saberes por onde.

Quenelle de helado de yogur
Sólidos lácteos

O iogurte entra por dois: dá proteína e acidez, e dá corpo sem subir a gordura. Um iogurte natural mete um 3,9 % de proteína e um 4 % de lactose, e essa lactose conta para o tecto dos 6 %.

Helado de pistacho en cucurucho
Gordura vegetal

La pasta de pistácio traz a sua própria gordura e os seus próprios sólidos: 100 g metem 52 g de gordura —mais do que 150 g de natas— e 94 g de sólidos. Têm de ser sempre contados, seja a base de leite ou de água.

Quenelle de helado de chocolate
Gordura e açúcar

O chocolate traz a sua própria manteiga e o seu próprio açúcar: uma cobertura de 64 % mete 36 g de gordura e 34 g de açúcar por cada 100. Têm de ser descontados do resto, ou sairá duro e enjoativo.

Onde apontar

Parâmetros orientativos
por tipo

Não há uma receita ideal —depende da tua zona, da tua vitrina e do sabor—, mas há intervalos de referência para que a tua fórmula caia onde deve. O O POD vai em % e o PAC é o absoluto, ou seja, a temperatura real de serviço em °C negativos.

Como ler a tabela

Usa estes intervalos como ponto de partida. Depois ajusta com a calculadora conforme o teu sabor e a tua matéria-prima.

Tipo
POD (%)
PAC abs. (°C)
Sólidos
Gordura

Observações

Gelado de creme
POD (%)15–18
PAC abs. (°C)−11
Sólidos36–42 %
Gordura8–12 %

O mais cremoso: mandam a gordura e as natas. Abaixo dos 8 % é de leite.

Gelado de leite
POD (%)15–18
PAC abs. (°C)−11 a −12
Sólidos34–38 %
Gordura2,5–8 %

Mais leve, com o sabor lácteo mais limpo. A partir dos 8 % é de nata.

Sorvete de fruta
POD (%)16–20
PAC abs. (°C)−11 a −12,5
Sólidos26–34 %
Gordura0 %

Sem gordura: o corpo dão-no a fruta, os açúcares e o estabilizante.

Intervalos de referência contrastados com as receitas formuladas deste site. No sorvete damos um intervalo largo de propósito: a referência clássica é POD 18–20 % e PAC −11 a −12 °C, mas o gosto foi para sobremesas menos doces e hoje um sorvete funciona muito bem a partir dos 16 % de POD, com o PAC um pouco mais frio para compensar. Ajusta também consoante a tua zona: para climas quentes ou para servir de arca congeladora convém um PAC mais frio (mais negativo).

Nível seguinte

O que na verdade
faz a diferença

Quatro ideias que separam um gelado correcto de um redondo. Não são truques: é como a mistura se comporta por dentro.

Azúcares y estabilizantes en polvo pesados en tarros de cristal
Fibra vegetal

Inulina: mais cremoso e menos frio

A inulina é uma fibra solúvel que sobe os sólidos sem quase tocar no POD nem no PAC. Dá corpo, cremosidade e calor, e deixa-te baixar o açúcar sem que o gelado saia mais frio. Dose habitual: 1–3 %, e não mais de 40 g por litro: passada essa dose dá gases e é laxante.

Mito frequente

Os emulsionantes não emulsionam

Um emulsionante não une a gordura e a água por si só: só mantém uma emulsão que antes criaste mecanicamente. Por isso é preciso bater bem a mistura —varas, varinha mágica ou melhor um emulsionador a altas rotações— e fazê-lo a quente, que é quando a gordura se divide melhor.

O açúcar esquecido

Cuidado com a lactose

É o açúcar do leite e o mais problemático: acima de 6 % sobre o total da mistura cristaliza e deixa uma textura arenosa desagradável. Não se pode eliminar se usares leite, mas pode controlar-se —atenção, que a o leite em pó magro leva ~52 % de lactose—.

Como é por dentro

Solução, emulsão e dispersão

Num gelado convivem três estados ao mesmo tempo: a solução (açúcares e sais dissolvidos em água), a emulsão (gordura repartida na água) e a dispersão (fibras, frutos secos, cacau que não se dissolvem). Um bom gelado mantém os três unidos e estáveis até o comeres.

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Para não falhar

Erros frequentes
com os ingredientes

Quatro descuidos que se repetem. Nenhum se vê ao pesar: notam-se depois, na textura e no sabor.

Regra de ouro
Só com açúcar comum, o gelado sai duro à temperatura de serviço: os açúcares anticongelantes são os que baixam o PAC e o deixam cremoso.

Usar só açúcar comum

A sacarose sozinha adoça mas amolece pouco. Junta-lhe dextrose para baixar a dureza, e glucose atomizada para dar corpo sem doçura.

Esquecer os sólidos lácteos

Sem leite em pó a base fica aguada e cristaliza: os sólidos dão corpo, retêm água e impedem esses cristais de gelo.

Exagerar no estabilizante

Mais não é melhor: em excesso fica gomoso e pegajoso. Mexe-se em décimas de ponto percentual, por isso pesa-o com precisão e nunca a olho.

Ingredientes de baixa qualidade

O sabor final não se inventa: uma baunilha ou um cacau medíocres dão um gelado medíocre. Parte sempre de boa matéria-prima.

Formular é precisão: meia décima a mais num açúcar já se nota na colher.

Passo seguinte

Já sabes o que comprar.
Agora, como se junta

Já sabes o que entra na mistura e o que cada coisa dá. O passo seguinte é o processo: pesar, pasteurizar, maturar e mantecar até dar com a textura que procuras.

Perguntas frequentes

É preciso estabilizante para fazer gelado em casa?

Para uma cuvete que vais comer hoje, não. Para que aguente uma semana sem se encher de cristais, sim, ajuda muito. O estabilizante retém a água livre e impede-a de se mover e voltar a congelar em cristais grandes, que é o que faz um gelado de três dias saber a gelo.

O que é exactamente o neutro para gelados?

Uma mistura já preparada de estabilizantes e emulsionantes, doseada para que não tenhas de pesar cada goma em separado. Há-os para creme e para fruta, e não são intercambiáveis: trabalham com quantidades de água muito diferentes.

Porque não chega só açúcar comum?

Porque o açúcar comum faz dois trabalhos ao mesmo tempo —adoçar e evitar que a água congele— e nem sempre os queres na mesma proporção. Com dextrose e glicose podes baixar o ponto de congelação sem subir a doçura, ou ao contrário. Isso é metade da formulação.

Leite gordo ou magro?

Falamos da líquida: gordo, a não ser que estejas a compensar a gordura noutro sítio. A sua gordura é parte da cremosidade, e se a tiras tens de a repor com natas. O em pó é outra história: sempre magro, porque a usamos justamente para subir sólidos sem subir gordura.

Pode fazer-se gelado sem natas?

Sim, mas a gordura tem de vir de outro sítio: leite gordo em maior quantidade, manteiga, gema ou uma gordura vegetal. Um gelado de nata precisa de cerca de 8 % de gordura; abaixo disso nota-se na textura antes do que no sabor.

Para que serve o leite em pó?

Para subir os sólidos sem subir a água, que é o problema constante de um gelado. Dá proteína e lactose, e as duas ajudam a textura. Cuidado com o exagero: acima de certa quantidade a lactose cristaliza e o gelado sai arenoso.

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