Oito gelatarias de Gijón. Oito taças de baunilha compradas no mesmo dia e provadas às cegas, sem olhar para a cor e sem ter em conta a textura. O resultado: só duas sabiam mesmo a baunilha. Este é o vídeo e isto é o que aprendemos pelo caminho.
Porque é que a baunilha a sério é cara
A baunilha não se fabrica: nasce de uma flor que se abre uma só vez por ano. Exige paciência, um clima muito concreto e mãos experientes para a polinizar uma a uma, e por isso é um dos ingredientes mais caros do mundo. Consoante o calibre, a vagem encontra-se a partir de 1 € a unidade.
Um euro. É a cifra que dá sentido a todo o vídeo: a pergunta não é se uma gelataria pode dar-se ao luxo de usar baunilha a sério, mas quantas estão dispostas a investir esse euro por litro no ingrediente principal do gelado que anunciam no letreiro.
Porque assim que aparece a palavra mágica, aparece também tudo o resto: baunilha em pó, em pasta, em bases de gelado já preparadas. Às vezes figura no rótulo como aroma. Outras vezes, nem isso.
Como se fez a prova
Fomos a oito das gelatarias mais conhecidas de Gijón. Todas anunciam baunilha na sua sinalética. Não vamos dizer quais são, porque o objetivo não é apontar ninguém: é mostrar o que há.
- Às cegas. Mexeu-se cada taça antes de a provar, para não deixar que a cor influenciasse. Um gelado muito amarelo parece mais de baunilha, e não tem de o ser.
- Sem julgar a textura. As oito amostras foram tratadas mal de propósito: transportadas e congeladas a −18 ºC. Com esse maltrato, avaliar a textura não teria sido justo para ninguém.
- Com um infiltrado. Entre as amostras entrou uma taça de gelado de baunilha feito em casa, para ter uma referência conhecida dentro da prova.
O que saiu daí
Das oito, só duas sabiam a baunilha. O resto repartiu-se entre várias que sabiam a leche merengada — um sabor bom, mas que não é o que está no letreiro —, uma com um ponto estranho a álcool e outra que simplesmente não sabia a nada.
O infiltrado foi reconhecido à primeira, coisa que também não tem grande mérito quando se faz essa receita há anos. E ficou uma conclusão incómoda: o melhor dos que não eram baunilha revelou-se uma base de hotelaria das que se usam sem mais.
O pormenor que o denuncia: as pintinhas
Aqui está o que podes aplicar tu da próxima vez que estiveres à frente de uma vitrina. Todos esses gelados tinham pintinhas escuras, aquele pontinho que associamos à vagem raspada. Mas postos lado a lado vê-se claríssimo que não são as mesmas pintinhas: as da baunilha a sério têm outro aspeto, outro tamanho e outra distribuição.
Haver pintinhas não significa que haja baunilha. Significa, quando muito, que alguém quis que o parecesse.
E então, o que faço eu?
O mais saudável é deixar de confiar no letreiro e na cor, e começar pelo cheiro e pelo sabor: uma baunilha a sério é floral e persistente, não fica pelo doce. E se te apetece deixar de depender do que te vendem, a melhor resposta é fazê-lo tu, que ainda por cima sai mais barato do que parece quando aproveitas a vagem inteira.
E se queres perceber de onde sai esse preço e porque é que a boa vale o que vale, vale a pena ler como se cultiva e se cura, contado por quem há catorze anos vai a Madagáscar procurá-la.
Este vídeo é uma paródia, mas com um objetivo muito sério: que o consumidor saiba o que lhe estão a vender, e que quem sabe fazê-lo bem se anime a fazê-lo bem.




